terça-feira, 17 de março de 2020

COVID-19: Agora o problema não é a letalidade!


Ouvindo as pessoas discutindo sobre a baixa letalidade do COVID-19 quando comparado às outras doenças de nosso cotidiano, fiz uma pesquisa sobre o tema e resolvi escrever este artigo com o resultado.

Enquanto o novo coronavírus (COVID-19) se espalha pelo mundo afora, oferece uma janela de oportunidade para que os países menos atingidos, se preparem antes que a doença assuma proporções incontroláveis. Mesmo fora da China, epicentro da pandemia no início, a maior parte dos casos se concentra no Hemisfério Norte, que está no fim do inverno, estação mais propícia à disseminação do vírus. Neste momento (17/03/2020) a Europa assumiu o epicentro da pandemia. A essa altura, também já existe uma série de países que servem de bons e maus exemplos do que fazer para conter a expansão do COVID-19.

Enquanto a Itália esperou demais até tomar ações de contenção, o que teve como resultado uma explosão na taxa de contaminação que forçou o governo a colocar o país todo em quarentena, outras nações conseguiram controlar o surto graças a uma combinação de agilidade com medidas amplas e eficazes. Como exemplo positivo, temos o caso da Coreia do Sul, onde o uso pesado de tecnologia combinado com o acesso amplo a testes, mesmo para quem ainda não apresentasse sintomas, foi essencial para identificar os doentes e os locais onde eles estiveram, proporcionando aos demais cidadãos os meios de reduzir o risco de contaminação. Outro exemplo positivo e que também merece ser citado, foi a construção de 2 hospitais totalizando 2 mil leitos em Wuham, China, em menos de 1 mês.

Importante ter a compreensão que a grande ameaça da COVID-19 não é exatamente sua letalidade entre a população geral, que realmente é mais baixa do que a observada em surtos passados de doenças similares, embora a letalidade seja grande entre idosos e pessoas com outras doenças crônicas, como diabetes e problemas cardíacos. Em números absolutos, o novo coronavírus mata diariamente muito menos do que as doenças cardiovasculares (47.945 óbitos/dia, 2018 OMS), câncer (26.301 óbitos/dia, 2018 IARC), tabagismo (19.178 óbitos/dia, OMS), diabetes (11.506 óbitos/dia, 2018 IDF). Até hoje (17/03/2020) o pico diário de mortes pelo COVID-19 ocorreu em 16/03/2020 com 686 óbitos naquele dia (wordmeters.info).

Figura 1 - mortes diárias pelo COVID-19

O que faz do coronavírus um problema sério de saúde pública é principalmente a velocidade com que se espalha. Ainda que de 80% a 90% dos casos sejam leves ou médios, a questão é se os 10% a 20% que precisarem de um atendimento emergencial ou até um leito de hospital com um respirador terão essa infraestrutura à disposição?

Figura 2 - mortes por idade pelo COVID-19

Estatisticamente este grupo de pessoas denominado grupo de risco, incluem aquelas acima de 60 anos de idade e também os portadores de doenças crônicas (doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão, câncer e insuficiência respiratória). A quem como já dito, precisa ser priorizado o atendimento, pois há uma grande chance de óbito.

Figura 3 - mortes de pessoas com doenças crônicas pelo COVID-19

É este raciocínio que está na base movimento denominado “flatten the curve”, uma referência à curva de contaminação, e que defende a adoção imediata de medidas de restrição, como o cancelamento de eventos e as quarentenas compulsórias. Segundo este raciocínio, se uma comunidade continuar funcionando como de costume, o coronavírus se espalhará mais rapidamente e muito mais pessoas ficarão doentes ao mesmo tempo, e neste caso mesmo os 10% de casos graves já bastarão para saturar toda a rede hospitalar, com consequências sérias inclusive para pacientes de outras doenças, transformando em situações extremamente sérias, questões que em outro momento seriam simples de ser resolvidas. No entanto, as restrições teriam o poder de diminuir a velocidade de contágio, e com isso impedir a superlotação dos hospitais – quem precisar de um leito de UTI, seja por complicações do coronavírus, seja por outras causas, não ficaria desamparado. O efeito colateral desta abordagem seria um surto mais longo, pois levaria mais tempo até que a população adquirisse a imunidade que vem após a cura.

Figura 4 - "Flatten Curve"

O grande desafio para a aplicação do “flatten the curve” é achar o momento exato para implantar as restrições e dimensioná-las adequadamente. Demorar demais compromete a liberdade individual, como ocorre na Itália; antecipar-se demais pode aprofundar as inevitáveis consequências econômicas, algumas delas irreversíveis, de todo cancelamento de evento ou suspensão de atividade social e econômica. Para ficar em apenas um exemplo, o entretenimento e o esporte que são a diversão de uns são o ganha-pão de outros. Nem todos os funcionários de teatros, ginásios ou times podem contar com generosidade semelhante à de alguns proprietários de equipes de ligas esportivas americanas, que se comprometeram a continuar pagando os salários mesmo com as partidas suspensas, uma vez que estes trabalhadores por lá, possuem sua remuneração diretamente proporcional ao acontecimento dos jogos.

A julgar pela maneira como se deu a curva de contaminação em outros países, esta semana marca o início de um período decisivo para o surto de coronavírus no Brasil, pois o número de casos pode saltar de poucas centenas para dezenas de milhares em poucos dias. Até o momento, as autoridades de saúde têm agido de acordo com critérios técnicos, usando todos os recursos à disposição, e empregando diversos meios para informar a população sobre as características e a disseminação do COVID-19.

E você, está fazendo sua parte para não propagar o COVID-19?

Links importantes:

Saiba o que é fake news sobre o COVID-19 diretamente do site do Ministério da Saúde:
https://www.saude.gov.br/fakenews/coronavirus

Acompanhe o COVID-19 em tempo real através da solução desenvolvida pela Universidade John Hopkins (EUA): https://gisanddata.maps.arcgis.com/apps/opsdashboard/index.html

Excelente vídeo da BBC explicando sobre a questão da curva achatada:
https://youtu.be/0VGKNzqhX2c 

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